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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Povo engole tudo e nem sabe que paga várias vezes o que já é dele!

Fonte: "por ai na internet"... 


Aluna de 22 anos afirma: "NÃO PAGO PEDÁGIO EM LUGAR NENHUM ". O texto está correndo o Brasil! LEIA:

06/06/2011
"A Inconstitucionalidade dos Pedágios", desenvolvido pela aluna do 9º semestre de Direito da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) Márcia dos Santos Silva choca, impressiona e orienta os interessados.

A jovem de 22 anos apresentou o "Direito fundamental de ir e vir" nas estradas do Brasil. Ela, que mora em Pelotas, conta que, para vir a Rio Grande apresentar seu trabalho no congresso, não pagou pedágio e, na volta, faria o mesmo. Causando surpresa nos participantes, ela fundamentou seus atos durante a apresentação.
Márcia explica que na Constituição Federal de 1988, Título II, dos "Direitos e Garantias Fundamentais", o artigo 5 diz o seguinte:

"Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade " E no inciso XV do artigo: "é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens".

A jovem acrescenta que "o direito de ir e vir é cláusula pétrea na Constituição Federal, o que significa dizer que não é possível violar esse direito. E ainda que todo o brasileiro tem livre acesso em todo o território nacional O que também quer dizer que o pedágio vai contra a constituição".

Segundo Márcia, as estradas não são vendáveis. E o que acontece é que concessionárias de pedágios realiza contratos com o governo Estadual de investir no melhoramento dessas rodovias e cobram o pedágio para ressarcir os gastos. No entanto, no valor da gasolina é incluído o imposto de Contribuição de Intervenção de Domínio Econômico (Cide), e parte dele é destinado às estradas.

"No momento que abasteço meu carro, estou pagando o pedágio. Não é necessário eu pagar novamente Só quero exercer meu direito, a estrada é um bem público e não é justo eu pagar por um bem que já é meu também", enfatiza.

A estudante explicou maneiras e mostrou um vídeo que ensinava a passar nos pedágio sem precisar pagar. "Ou você pode passar atrás de algum carro que tenha parado. Ou ainda passa direto. A cancela, que barra os carros é de plástico, não quebra, e quando o carro passa por ali ela abre.

Não tem perigo algum e não arranha o carro", conta ela, que diz fazer isso sempre que viaja. Após a apresentação, questionamentos não faltaram. Quem assistia ficava curioso em saber se o ato não estaria infringindo alguma lei, se poderia gerar multa, ou ainda se quem fizesse isso não estaria destruindo o patrimônio alheio. As respostas foram claras. Segundo Márcia, juridicamente não há lei que permita a utilização de pedágios em estradas brasileiras.

Quanto a ser um patrimônio alheio, o fato, explica ela, é que o pedágio e a cancela estão no meio do caminho onde os carros precisam passar e, até então, ela nunca viu cancelas ou pedágios ficarem danificados. Márcia também conta que uma vez foi parada pela Polícia Rodoviária, e um guarda disse que iria acompanhá-la para pagar o pedágio. "Eu perguntei ao policial se ele prestava algum serviço para a concessionária ou ao Estado.

Afinal, um policial rodoviário trabalha para o Estado ou para o governo Federal e deve cuidar da segurança nas estradas. Já a empresa de pedágios, é privada, ou seja, não tem nada a ver uma coisa com a outra", acrescenta.
Ela defende ainda que os preços são iguais para pessoas de baixa renda, que possuem carros menores, e para quem tem um poder aquisitivo maior e automóveis melhores, alegando que muita gente não possui condições para gastar tanto com pedágios. Ela garante também que o Estado está negando um direito da sociedade. "Não há o que defender ou explicar. A constituição é clara quando diz que todos nós temos o direito de ir e vir em todas as estradas do território nacional", conclui. A estudante apresenta o trabalho de conclusão de curso e formou-se em agosto de 2008.

Ela não sabia que área do Direito pretende seguir, mas garante que vai continuar trabalhando e defendendo a causa dos pedágios.

E AGORA?

VAMOS COMPARTILHAR E VER NO QUE ISSO VAI DAR...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

11 de setembro: never forget!


11 de setembro: never forget!
O hábito de esquecer o que não devia ser esquecido talvez já tenha afastado da memória de muitos a ameaça dirigida por Osama Bin Laden aos regimes árabes que aceitavam a legitimidade das instituições internacionais, por renunciarem “à única e autêntica legitimidade, a legitimidade que vem do Alcorão”.
Em Nova York, a manhã de 11 de setembro de 2001 parecia ser apenas o início de mais um dia, numa das mais importantes, ou na mais importante cidade do mundo.
Em pouco tempo a surpresa e o terror atingiram Manhattan, por assim dizer o coração da nação norte-americana. As cenas dos aviões, pilotados por terroristas suicidas islâmicos, jogados contra o World Trade Center, ultrapassavam qualquer imaginação e mais pareciam cena de alguma ficção de Hollywood.
A realidade superara a ficção. Os atentados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center visaram prédios simbólicos do poderio e do estilo de vida norte-americano e, por conseqüência, do mundo ocidental. Não se tratou de um ato de terror gratuito ou impensado.
Para além de espalhar, desde logo, o pânico, os atentados constituíram uma declaração de guerra (não principalmente bélica), que se revestiu de uma dimensão simbólica e pretendeu causar profundos efeitos psicológicos nos norte-americanos e nos ocidentais em geral.
Em poucas horas o cenário no “ground zero” era de uma destruição – sem exageros – apocalíptica. Destruição captada na impressionante foto que ilustra este post, tirada por Greg Semendinger, da New York City Police Aviation Unit. A história contemporânea dera uma guinada que marcou toda esta década.
Uma guerra para conquistar nossas almas
O que se evolava dos escombros das Torres Gêmeas, além das colunas ameaçadoras de fumaça, dos gritos lancinantes de dor, do silêncio acabrunhador da morte? Definiu-o, naqueles dias, a pena, totalmente insuspeita, da jornalista Oriana Fallacci, uma “laica sem tabus”, como ela mesma se definiu.
Num escrito, que qualificou de um grito para “tentar abrir os olhos de quem não quer ver, desentupir os ouvidos de quem não quer escutar, obrigar a pensar quem não o quer fazer”, a correspondente de guerra – que cobriu quase todos os importantes conflitos do nosso tempo –, invectivava muitos míopes no Ocidente que não queriam entender a guerra religiosa que procurava destruir nossa cultura, nossa arte, nossa ciência, nossa moral, nossos valores:
“Uma guerra a que eles chamam Jihad, Guerra Santa. Uma guerra que talvez (talvez?) não vise a conquista do nosso território, mas que certamente pretende conquistar as nossas almas. O desaparecimento da nossa liberdade e da nossa civilização. O aniquilamento do nosso modo de viver e de morrer. Do nosso modo de orar e de não orar, de estudar ou de não estudar, de beber ou de não beber, de vestir ou de não vestir...” (cfr. A Raiva e o Orgulho, Difel, Lisboa, 2002).

Totalitarismo islâmico e revolução anticristã

Mas, afinal, o que inspira o terrorismo islâmico e as correntes político-religiosas que o patrocinam?
Por que motivo tantos grupos da esquerda ocidental – inclusive da “esquerda católica” – não disfarçam sua simpatia por estas correntes e, embora não ousem apoiar abertamente suas criminosas ações, buscam sempre alguma razão que as tornem "compreensíveis"?
O que move tantos jornalistas “engajados” a considerar com aversão a chamada guerra ao terror (omitindo ou minorando qualquer êxito da mesma) e a realçar (com um mal disfarçado comprazimento) qualquer sucesso destas organizações do terror contra as tropas norte-americanas ou de outros países ocidentais?
O que une o totalitarismo islâmico e determinadas correntes políticas, ideológicas e religiosas do Ocidente?
Convido os leitores a lerem um ensaio, bem fundamentado, de autoria de Luís Dufaur (um estudioso da matéria), publicado na revista Catolicismo (nov. 2001), sob o título: A verdade sonegada sobre o fundamentalismo islâmico. A leitura nos deixa entrever que o vírus da revolução anticristã ocidental, inoculado no maometanismo, gerou o monstro fundamentalista:

*

“Desde os atentados de 11 de setembro, o grande assunto da mídia é o Islã. Suas múltiplas correntes — enormemente subdivididas — são citadas e comparadas. De forma superficial, especula-se sobre as moderadas e as radicais, e se investigam suas complexas rachaduras étnicas e culturais. Sumidades islâmicas, na verdade totalmente desconhecidas, são apresentadas ao Ocidente e os termos árabes são utilizados como se todo mundo os entendesse. Depois desse bombardeio psicológico, o leitor fecha o jornal — ou desliga a TV — com a sensação de não ter recebido uma informação objetiva e clara da realidade.

Um aspecto capital da temática parece ser meticulosamente ocultado: o que é, na realidade, esse fundamentalismo islâmico? Identifica-se com Maomé e com o Corão? Caso não se identifique, o que é, então?

De outro lado, por que a esquerda mais ardida no Ocidente, particularmente a chamada esquerda católica, disfarça mal sua simpatia pelos talebans fundamentalistas? Afinal, por detrás das aparências, existe um fundo comum que une a esquerda progressista ao fundamentalismo islâmico?

Islã: mundo até há pouco desconhecido e pouco significativo para o Ocidente
O afluxo de petrodólares, que deveria significar um avanço do progresso moderno nos domínios do Islã, parece não ter eliminado essa paralisia. Apenas um punhado de emires, sheiks e sultões esbanja milhões em luxos exibicionistas, em geral de mau gosto e freqüentemente imorais, enquanto a massa das populações — seguindo os ensinamentos do “profeta” — vegeta à sombra do festim dos hiper-ricaços.

Tornou-se abismal a desproporção entre a organização e a pujança do Ocidente nascido da Civilização Cristã — embora hoje profundamente apodrecido pelo neopaganismo — e a desordem e imobilismo da pesada herança de Maomé. No século XIX, quase todas as terras muçulmanas estavam sob o controle de nações européias, ricas e dinâmicas.

Se a paralisia não gera movimento, de onde veio esse dinamismo?
No início do século XX, nesse magma secularmente esclerosado, eclodiu uma tendência nova chamada fundamentalismo. Ela é ativa, agressiva, modernizada nas suas técnicas, muitas vezes terrorista. E, subitamente, passou a ameaçar a ordem mundial ocidental neopaganizada, ex-cristã, “senhora do universo”.

Diz o adágio popular que “ninguém dá o que não tem”. Como a paralisia não gera o movimento, dinamismo só poderia vir de quem o tivesse. Um rápido giro pelas biografias dos líderes islâmicos fundamentalistas mostra que eles, em sua maioria, formaram-se em universidades do Ocidente ou em equivalentes escolas ocidentalizadas no Oriente. Seus escritos reproduzem as mesmas idéias que corroem as bases cristãs das nossas sociedades ocidentais. É como se o vírus revolucionário ocidental tivesse sido aplicado num caldo de cultura estagnado, produzindo uma infecção explosiva, com características próprias, mas com a mesma origem ocidental.

O chefe terrorista Bin Laden é um exemplo característico desse processo de laboratório da Revolução. Filho de milionários, foi educado no seletíssimo colégio Le Rosey, na Suíça. Sua juventude foi a de um play-boy dojet-set, em meio a luxos e escândalos nas capitais ocidentais e na Arábia Saudita1. Sim, do jet-set, tão a gosto das esquerdas, até das tupiniquins.

Hassan el-Turabi, o ideólogo do regime perseguidor dos cristãos do Sudão, diplomou-se em Oxford e na Sorbonne. Ali Benadi e Abasi Madani, líderes fundamentalistas da Argélia, aprenderam suas doutrinas e técnicas subversivas na Europa. Os sequazes imediatos de Bin Laden também provêm de ambientes cultos e abastados. A lista é interminável...

O Islã, enquanto crença religiosa, está espalhado por uma imensidade de povos que vão desde o Atlântico até a Polinésia. O fatalismo e a sensualidade exacerbada da religião de Maomé lançaram essa parte da humanidade, em larga medida, no miserabilismo mais radical. Até há pouco, o seu multissecular torpor era perturbado apenas por disputas locais.
O estudioso francês Roger du Pasquier constata: “Os teóricos de maior autoridade no seio dos movimentos integristas e ativistas engajados do mundo muçulmano, apesar de sua recusa formal e superficial do Ocidente, manifestam na realidade uma contaminação de pensamento das concepções ocidentais modernas”. Que concepções? Ele esclarece: “As das forças subversivas que há dois séculos têm provocado tantas revoluções e violências no Ocidente e no Oriente, até na China” 2. Isto é, o socialismo e o comunismo, não em suas fórmulas já fracassadas, mas em versões mais atualizadas, como veremos. Retenha essa idéia, leitor, e verá que ela pode ser a chave para se compreender muitos dos acontecimentos atuais.

Promotores destacados da Revolução anticristã no Ocidente vêm se tornando islamitas
Há anos, figuras engajadas na Revolução político-social e cultural que abala os alicerces cristãos do Ocidente vêm passando para o Islã, sem renunciar às suas idéias. Por exemplo, Roger Garaudy, antigo responsável do Partido Comunista Francês para a relação com as religiões, agora prega o islamismo como via superior para atingir as metas utópicas de Marx e Lenine. Cat Stevens, pop-star do rock, também perverteu-se e financia uma ONG islâmica 3. O mesmo fizeram, entre outros, o ecologista Jacques Cousteau, o coreógrafo Maurice Béjart, os cantores Richard e Linda Thompson, o campeão mundial de boxe Cassius Clay, que ingressou nos Black Muslims, movimento filo-marxista liderado por Malcolm X, outro converso muçulmano.

Primeiras tentativas de inoculação revolucionária no Islã
Nos séculos da estagnação, houve tentativas de reacender o furor anticristão islâmico. Mas não passaram de casos restritos. Por exemplo, Muhammad Ibn Abdel Wahhab (1703-1787) formou uma confraria radical — o waabismo — que teria ficado desconhecida se, por ocasião da Primeira Guerra Mundial, os seus escassos seguidores não se tivessem aliado à Inglaterra contra a Turquia. Após o conflito, receberam como recompensa o reino da Arábia Saudita.

Foi no fim do século XIX e no século XX, que cresceu a penetração das idéias revolucionárias ocidentais no mundo muçulmano. Djamal ed-Din Afghani (1839-1897), a partir de Londres, atiçou a insurreição iraniana. Muhammad Abduh (1849-1905), seu continuador, pregou idéias progressistas européias, de tipo anticolonialista. Na Índia, Sayed Ahmad Kahn (1817-1898), que ostentava o título de Sir inglês, criou o centro de pensamento nacionalista muçulmano, do qual saíram os pais do Paquistão (o país dos puros). Um outro Sir inglês, formado em Oxford, Heidelberg e Munique, admirador de Hegel, Nietzche e Bergson, Muhammad Iqbal (1873-1938), foi quem formulou a idéia e o nome do atual Paquistão. Ele elogiava o marxismo e tentou realizar a síntese do socialismo com a doutrina de Maomé. Seu discípulo, Abdul Ala Maududi (1903-1979), fortemente modernista, pregou uma terceira via entre capitalismo e comunismo, sendo considerado o pai do fundamentalismo paquistanês hodierno 4.

Da noite para o dia: de Marx a Khomeini
Na famosa revolução de Khomeini, no Irã, iniciada em 1979, numerosos militantes de esquerda tornaram-se fundamentalistas. O intelectual cristão-marxista Gahli Chuckri narra: “Entre os aspectos que ainda estão presentes ante nossos olhos, figura o fato de se ver pensadores conhecidos pelo seu passado marxista transformarem-se, num abrir e fechar de olhos, em islamitas convictos. Sim, pensadores que pertencem — pela sua ata de batismo — ao Cristianismo, transformaram-se, da noite para o dia, em muçulmanos extremistas; pensadores que pertencem, pela cultura, ao Ocidente e ao modernismo, viraram orientalistas fanáticos sem nenhuma formalidade nem restrição!” 5.

O Partido Comunista Iraniano (Tudeh) aprovou a revolução dos aiatolás: O conteúdo do processo da evolução histórica toma hoje um aspecto religioso. Para os marxistas, é perfeitamente natural. Esta revolução anti-imperialista, antiditatorial e popular foi feita segundo as palavras de ordem do Islã e sob a direção de um chefe religioso célebre no Irã, o ímã Khomeini” 6.

Voltando de Paris, Khomeini criou a organização terrorista Hezbollah. O discurso de fundação do organismo foi uma paráfrase do satânico brado de Marx e Engels — “Proletários do mundo, uni-vos”: “Até hoje — afirmou — os oprimidos estiveram desunidos, e nada se consegue na desunião. Agora que foi dado um exemplo da eficácia da união dos oprimidos em terra muçulmana, esse modelo deve ser difundido por toda parte. ... e tomar o nome de ‘partido dos oprimidos’, sinônimo de ‘Partido de Deus’, ‘Hezbollah’. Os oprimidos devem reinar sobre a terra, essa é a vontade do Altíssimo, de Alá” 7. Como se vê, é o velho marxismo vestido de muçulmano.

Bruno Étienne, professor de islamismo na Universidade de Aix-en-Provence, na França, explica a afinidade entre Marx e o fundamentalismo: “A luta de classes, como Engels a tinha previsto, não desemboca na revolução senão quando ela pode se apresentar em termos religiosos; a finalidade do islamismo radical é bem terrena: criar um reino igualitário que derrube a arrogância dos proprietários” 8.

Desvendando as profundezas do fundamentalismo
Nada pesou tanto na gênese do fundamentalismo quanto a associação egípcia Fraternidade Muçulmana, ou Irmãos Muçulmanos. Ela foi fundada em 1928 por um modesto professor, Hassan al-Banna (1906-1949). “A ressurreição islâmica que se manifesta hoje no mundo árabe provém direta ou indiretamente da organização dos Irmãos Muçulmanos”, explica um site islâmico americano que publica a sua biografia 9.

Numa obra-chave, al-Banna ensina que o dever dos Irmãos é “expandir o Islã a todos os recantos do Globo até que não haja mais tumulto nem opressão e que a religião de Alá prevaleça”. E que o slogan deles deve ser: “A morte nas vias de Alá deve ser a nossa mais prezada aspiração” 10.

Na Fraternidade, sunitas e shiítas se acotovelam e mantêm uma unidade de ação. Em 1989, o regime de Teerã divulgou um opúsculo que acumulava exemplos de concordância e colaboração de sunitas e shiítas radicais, no seio dos Irmãos. Ele reproduz elogios rasgados da Fraternidade a Khomeini e, vice-versa, exalta al-Banna como grande artesão dessa unidade 11.

Em seus primórdios, a organização inclinou-se pelas idéias nazi-fascistas, nacionalistas, anticapitalistas e antijudaicas, em moda na Europa de então. Tal componente nunca deixou de existir no movimento fundamentalista, em geral sendo acrescido de outros elementos 12.

Sayyid Qutb — o ‘Gramsci’ do fundamentalismo — faz a releitura revolucionária do Corão
Ninguém marcou tanto a Fraternidade Muçulmana quanto Sayyid Qutb (1906-1966). Ele representou para o fundamentalismo o que o italiano Gramsci foi para o comunismo. Fez com Maomé o que o pensador peninsular fez com Marx: uma releitura revolucionária.

Nos Estados Unidos, Qutb conheceu o renascimento pentecostalista protestante, baseado num retorno aos chamados fundamentos. Daí o fato de o termo fundamentalismo ser aplicado ao novo islamismo, embora este jamais o empregue.

Qutb revestiu de palavreado corânico as utopias revolucionárias ocidentais. É preciso, segundo ele, que o Islã volte à sua essência primeira, aos seus fundamentos. E reformulou tais fundamentos, parafraseando a doutrina anárquica da desalienação (ninguém deve estar submisso a ninguém).

Em seu livro-base, ensina: “O Islã é uma declaração geral pela libertação do homem no mundo da dominação por parte de seus semelhantes; a recusa completa do poder de toda criatura, sob todas as formas; a recusa de toda situação de dominação por organizações e situações sobre seres humanos, sob qualquer forma que seja. Quando o poder está em mãos de seres humanos, eles personificam o Criador e, em conseqüência, seus semelhantes os aceitam. Agora isto é desconhecer e expropriar o poder de Alá, devendo ser expulsos esses usurpadores. Isto significa a negação do reinado dos seres humanos, para substituí-lo por um reinado divino sobre a Terra” 13.

Qutb sabia que um reinado direto de Alá sobre os homens não é praticável. Propunha então um regime intermediário, em que uma organização pouco visível conduzisse os povos até a hora em que todo governo cessaria e os homens viveriam em contato direto com Alá. Portanto, uma concepção análoga à da “vanguarda do proletariado” de Lenine.

As semelhanças entre o progressismo católico e o fundamentalismo islâmico
Segundo o Corão, Deus revelou-se primeiro a Abraão. Tendo os judeus prevaricado, comunicou-se a Jesus. Os cristãos também falsificaram a revelação divina. Então, Deus manifestou-se a Maomé. O Corão seria a mensagem definitiva insofismável, e Maomé o último dos profetas.

Qutb explica a “apostasia” dos cristãos seguindo o pensamento do progressismo ocidental. As primeiras comunidades cristãs, segundo ele, teriam tido um contato direto com Deus, sem intermediários, autoridades nem doutrinas racionais. Mas o reconhecimento de autoridades hierárquicas e de um Magistério teológico e pastoral racional trouxe a catástrofe. E acrescenta: “A maior calamidade foi o triunfo histórico do Cristianismo. Isto aconteceu quando o Imperador Romano Constantino abraçou a ‘nova religião’”. Além do mais, segundo Qutb, sucessivos concílios definiram verdades de fé e reforçaram a autoridade pontifícia 14.

Qutb via defensores da “verdadeira religião” nos heréticos arianos, monofisitas e jacobitas, que foram excomungados pela Igreja. A “apostasia”, de acordo com sua tese, culminou na Idade Média. Qutb se enfurece contra o monaquismo medieval, a obediência e a castidade praticadas pelos monges e frades.“Foram introduzidos no Credo — acrescenta — dogmas abstratos incompreensíveis, inconcebíveis e incríveis, o mais surpreendente dos quais foi o dogma relativo à Eucaristia, contra o qual se revoltaram Martinho Lutero, João Calvino e Zwinglio, lançando as bases do protestantismo”. Ele também execra a Inquisição, que puniu Giordano Bruno com a morte, e Galileo Galilei com censura eclesiástica 15.

Nas heresias e nas contestações à Igreja Católica, ele vê sinais precursores de um retorno à mensagem primitiva do Cristianismo, que estaria na íntegra no Islã. “A Europa rebelou-se contra o Cristianismo; a Europa rebelou-se contra os arbítrios dos homens de Igreja”, regozija-se ele. Mas a Europa revoltada ficou tão marcada pela Igreja, que dela não se pode esperar a “salvação”. O europeu, segundo ele, em todos os assuntos raciocina logicamente, faz distinções, por influência da pervertida Igreja 16.

Missão do fundamentalismo: completar a Revolução anticristã
Essa é uma das chaves para se entender todo o fenômeno do fundamentalismo islâmico. Estamos diante da etapa culminante do processo revolucionário, denunciado e analisado por Plinio Corrêa de Oliveira emRevolução e Contra-Revolução. Qutb reverencia os “princípios da Revolução Francesa e os direitos da liberdade individual, no início da experiência democrática norte-americana”. Porém, lamenta que “esses valores jamais se desenvolveram plenamente e jamais foram realizados por inteiro. Eles são insuficientes para enfrentar as exigências de uma humanidade em evolução”. A salvação, conclui o ideólogo dos Irmãos Muçulmanos, não virá do Ocidente, mas do Islã. Ele completará o que a rebelião contra o Cristianismo não conseguiu fazer 17.

“Isto exige uma operação de ressurreição [islâmica que] será seguida mais cedo ou mais tarde pela tomada da direção do destino humano no mundo” 18. “O Islã está destinado para todo o gênero humano: seu campo de ação é a Terra, toda a Terra” 19, numa República Islâmica Universal, sob os eflúvios de autoridades religiosas encobertas pelo segredo.

Erradicar da Terra qualquer vestígio da Cristandade
Eis a finalidade do “retorno aos fundamentos”: enxotar da Terra o último perfume da Cristandade que ainda paira nos países outrora católicos. Isto é, os últimos reflexos sobrenaturais na ordem temporal, que se contam entre os frutos mais preciosos atraídos à Terra pelos méritos da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Qutb expõe uma visão bastante clara do processo revolucionário que, desde a decadência da Idade Média, vem corroendo a Civilização Cristã. Porém, acrescenta-lhe um desenlace trágico que muito poucos entreviram: no final da Revolução anticristã não vigorará um mundo de prazeres e liberdades, no qual a ciência e a técnica eliminariam as doenças e a guerra, mas um espezinhamento sinistro, material e mental, sob o látego do fanatismo fundamentalista islâmico.

A revolução que ultrapassa o esclerosado comunismo
Quanto à propriedade privada, o professor Olivier Carré assim resume as máximas de Qutb: “No Islã, o proprietário jamais tem o direito de usar ou de abusar do seu bem. No Islã, a propriedade privada é um meio social a serviço das utilidades comuns” 20.

Mas, então, como explicar o fato de fundamentalistas islâmicos se declararem anticomunistas? O aiatolá Baqir as-Sadr — apelidado o Khomeini iraquiano, executado em 1980 — resolve a dificuldade. Ele sintetiza a doutrina comunista: “O objetivo inconsciente que o marxismo atribui ao movimento da História consiste na eliminação dos entraves no caminho do desenvolvimento das forças produtivas. Este objetivo alcançar-se-á pela abolição da propriedade privada e pela construção da sociedade comunista”. E, a seguir, introduz a crítica fundamentalista: “Então, a História deter-se-á após essa liberação, e todas as potencialidades e o impulso novo do homem deperecerão”. Para evitar que a evolução pare, explica o aiatolá, é preciso um horizonte novo que empolgue os homens para irem além do comunismo.

Uma Teologia da Libertação para o mundo islâmico
Esse horizonte novo tem que ser religioso. Diz as-Sadr: “Pôr Alá como objetivo da marcha evolutiva constitui a única estrutura ideológica que pode oferecer ao movimento humano uma energia inesgotável” 21. Nesta perspectiva, os comunistas clássicos representam um esclerosamento e devem ser eliminados. A tarefa agora será feita por religiosos.

De quebra, o novo horizonte tem outra utilidade. No mundo muçulmano, a autoridade natural e religiosa dos chefes de clãs, tribos e etnias é levada em grande consideração. Para os revolucionários era impossível destruir esse resto de ordem natural apelando para doutrinas laicas modernas, “porque mais cedo ou mais tarde o movimento novo mostrará a sua verdadeira face de inimigo declarado da Religião. Isso trará um grande desperdício de energias e exporá a obra em curso aos perigos que provêm da maioria dos conservadores do mundo islâmico” 22. Essa tarefa só seria viável sob vestes religiosas. Aliás, mutatis mutandis, o mesmo sucede com o progressismo católico, que, para objetivos análogos aos dos fundamentalistas muçulmanos, lançou mão da Teologia da Libertação.

Das “Mil e uma noites” às trevas infernais
O fundamentalismo não visa reacender o mundo das Mil e uma noites, dos tapetes fascinantes, dos míticos emires e sheiks do deserto, dos minaretes esguios e elegantes, das mesquitas douradas, do Taj-Mahal. Esse universo de maravilhas reflete lados positivos desses povos que hoje languescem sob o jugo da falsa religião de Maomé. Pelo contrário, o fundamentalismo visa também extinguir essas potencialidades de alma que poderiam desabrochar em civilizações de fábula, caso se convertessem à única Igreja verdadeira, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ele visa uma terra proletarizada, miserabilista, em contato com os abismos infernais. E para isso, por conveniência, recobre-se de aparências antigas e religiosas.

Revolução igualitária ocidental inoculada no maometanismo: gerado o monstro fundamentalista
Roger Garaudy, o ex-dirigente do PC francês que se tornou islâmico, narrou suas conversações com o ditador líbio Muhammad Khadafi, considerado no Ocidente sustentáculo do terrorismo internacional.

Khadafi ensinou-lhe a “tradução política” do versículo II-136 do Corão: “É uma democracia direta sem delegação de poder e sem alienação. Nada há de se substituir ao povo, nem por meio de partidos nem de parlamentos. Democracia direta através de comitês e congressos populares, que são emanação direta das empresas, das cooperativas agrícolas, das universidades, das aldeias, dos bairros” 23. Em poucas palavras, uma atualização do modelo que os sovietes não realizaram, e que as esquerdas recicladas tentam alcançar sob diversas formas de autogestão.

Em 1995, Garaudy publicou a obra Rumo a uma guerra de religião? — O debate do século 24, com prefácio do ex-frei e teólogo da libertação, Leonardo Boff. O ex-religioso franciscano elogiava Garaudy como profeta que, com D. Hélder Câmara, teria colocado as bases de uma convergência cristão-marxista anticapitalista. E acrescentava que o fundamentalismo islâmico vive do mesmo fogo libertário da Teologia da Libertação.
Garaudy anunciou uma “guerra de religião”, não entre a Igreja Católica e o Islã, mas dos revoltados das religiões contra toda forma de autoridade, porque esta seria intrinsecamente cúmplice do capitalismo consumista e hedonista.

Efetivamente, o fundamentalismo islâmico integra um vasto movimento que ultrapassa os limites do maometanismo histórico. O documentadíssimo Atlas Mundial do Islã Ativista constata que “o renascimento islâmico não é um fenômeno isolado, mas se inscreve num movimento global de recusa do materialismo mercador e midiático, que invade o Planeta há três décadas. Esse movimento tem uma dimensão natural: o da ecologia; e uma religiosa: o retorno ao fundamental” 25.

O fundamentalismo é objetivamente aliado das forças do caos, que se manifestaram no Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre 26, nas arruaças de Seattle e Gênova 27 e na subversão eclesiástica progressista.

O fundamentalismo — um fruto do que há de pior no Ocidente — tenta realizar uma síntese com o Alá de Maomé, ao qual se aplicam as palavras da Escritura: “Omnes dii gentium daemonia” (Sl 95-5), (Todos os deuses dos gentios são demônios).

Essa sinistra convergência lembra a tese de um histórico artigo publicado em Catolicismo, de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “Se Oriente e Ocidente se unirem fora da Igreja, só produzirão monstros” 28. O fundamentalismo islâmico e o pavoroso atentado de 11 de setembro constituem uma espantosa confirmação dessa tese.”

*
Alguém se perguntará que utilidade podem ter essas reflexões, dez anos após os ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York.
Antes de tudo vejo nelas uma utilidade profilática. A superficialidade de espírito de tantos de nossos contemporâneos, agravada pela sucessão trepidante e desordenada dos acontecimentos, tende rapidamente a esquecer aquilo que não deveria ser esquecido. Por este motivo me abalancei a intitular este post de “11 de setembro: never forget”.
O “nunca esquecer” — com que muitos norte-americanos procuram manter viva a memória da investida que sofreram —, me leva à segunda utilidade. Há dez anos foram as Torres Gêmeas o alvo do terrorismo islâmico. Hoje, as mesmas correntes revolucionárias que inspiraram os ataques do 11 de setembro de 2001, tentam seqüestrar a chamada “primavera árabe”. Nas águas turvas do acontecer político, tomam a dianteira e buscam fazer vingar suas ideologias e implantar seus regimes político-religiosos “jihadistas”, desfazendo os sonhos de “democracia” que pareciam embalar as revoluções do Egito, da Tunísia, da Líbia, da Síria, etc.
Aliás, o hábito de esquecer o que não devia ser esquecido talvez já tenha afastado da memória de muitos a ameaça dirigida por Osama Bin Laden aos regimes árabes que aceitavam a legitimidade das instituições internacionais, por renunciarem “à única e autêntica legitimidade, a legitimidade que vem do Alcorão”: seriam infiéis que não respeitam a mensagem do profeta e estariam fora do Islã. A ameaça, proferida pouco após o atentado às Torres Gêmeas, uma década depois vai se concretizando.
Por estes motivos, 11 de setembro: never forget!


Notas
:

1. Cfr. “O Globo”, 25-9-2001; “O Estado de S. Paulo”, 30-9-2001.

2. Roger du Pasquier, Le Réveil de l’Islam, Cerf, Paris, col. Bref, p. 34.

3. http://www.catstevens.com/articles/00009/index.html

4. Cfr. du Pasquier, op. cit., pp. 56-64.

5. Ghali Chuckri, “Al Bayadir”, nº 11, 1-2-82, in Al Hoda — Teheran branch, El sunnismo y el shiismo: una querella artificial y una provocación pérfida, Teerã, 1989, p. 34.

6. Ehsan Tabari, Le rôle de la religion dans notre révolution, “La Nouvelle Revue Internationale”, nº 12 (292), dezembro 1982, pp. 88-89.

7. In Atlas mondial de l’islam activiste, La Table Ronde, Paris, 1991, p. 234.

8. Bruno Étienne, L’islamisme radical, Hachette, Paris, 1987, p. 327.

9. http://www.jannah.org/articles/hassan.html.

10. Six tracts of Hasan Al-Banna, International Islamic Federation of Student Organizations, Kuwait, s/d, pp. 16-18.

11. Al Hoda, op. cit.

12. Veja-se por exemplo: Shaykh Abdul Qader Al-Murabit, Para el hombre que viene, Ediciones Ribat, Granada-México-Chicago, 1988. O autor se auto-intitula sheik, mas é um escocês chamado Ian Dallas. Ele fundou em Norwich o Movimento Morabitun, nome de uma histórica confraria místico-guerreira do Norte da África — os almorávidas. Seus membros são, em significativo número, ex-hippies e cultuadores frustrados da droga. No livro, Abdul Qader justifica o III Reich, e julga que não este não obteve a “libertação” total do homem, devido à oposição judaica-capitalista-usurária. Não critica o comunismo pelo seu lado igualitário e nivelador, mas porque teria sido excogitado por judeus. A “libertação” do homem exige, segundo ele, a extinção do consumismo capitalista. E a via para isso, agora, seria o Islã.

13. Sayyid Qutb, Jalons sur la route de l’Islam, International Islamic Federation of Student Organizations, Kuwait, s/d, 293 pp., pp. 96-97.

14. Sayyid Qutb, Il futuro sarà dell’Islam, International Islamic Federation of Student Organizations (Kuwait) / The Holy Coran Publishing House (Beirut), 1980, 42-44.

15. Id. ibid., pp. 51-57.

16. Id. ibid., pp 63-64.

17. Id. ibid., pp. 63-67.

18. Id. ibid., p. 15.

19. Id. ibid., p. 100

20. Olivier Carré, Mystique et politique — Lecture révolutionnaire du Coran par Sayyid Qutb Frère Musulman radical, Les Éditions du Cerf / Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, Paris, 1984. p. 149.

21. Baqir as-Sadr, sem título, Al-Hoda Teheran branch, Teerã, 1989, pp. 9-10.

22. Baqir as-Sadr, id. ibid., p. 27.

23. Roger Garaudy, Appel aux vivants, Seuil, Paris, 1979, pp. 294-295.

24. Desclée de Brouwer, Paris, 1995.

25. Atlas Mondial de l’Islam Activiste, Institut de Criminologie de Paris — Centre de Recherche sur la Violence Politique, La Table Ronde, Paris, 1991, p. 14.

26. Cfr. Catolicismo, nº 603, março 2001.

27. Cfr. Catolicismo, nº 609, setembro 2001.

28. Cfr. Catolicismo, nº 106, outubro 1959.

José Carlos Sepúlveda da Fonseca edita o blog Radar da Mídia - http://radardamidia.blogspot.com

domingo, 11 de setembro de 2011

A "religião da paz": Sobre 11-09-2001 e o terrorismo

Sobre 11-09-2001 e o terrorismo

http://blogdoambientalismo.com/sobre-11-09-2001-e-o-terrorismo/

Humilhados no campo de batalha [mormente pelos israelenses], os Estados árabes recorreram ao patrocínio do terrorismo de exilados palestinos. Operando de bases no Egito, no Líbano e na Jordânia,fedayins – literalmente, “autossacrifícios” – realizaram numerosos ataques a civis israelenses depois de 1949. Nos seis anos entre 1951 e 1956, mais de quatrocentos israelenses foram mortos e novecentos feridos por esses ataques.

A escalada de violência

Depois da Guerra dos Seis Dias, a Organização para a Libertação da Palestina operou com impunidade, a partir do território jordaniano, até que a pressão israelense forçou sua expulsão em 1970. A OLP, então, mudou-se para o sul do Líbano, um país cuja subsequente descida rumo à guerra civil criou um canteiro quase perfeito para organizações terroristas (algo que a invasão síria em 1976 não fez nada para alterar).

Ataques terroristas por guerrilheiros da OLP sediados no Líbano levaram os israelenses a invadir o país depois de um sequestro particularmente sangrento em março de 1978, embora eles tenham, subsequentemente, concordado em entregar a zona de fronteira para uma tropa das Nações Unidas. Quatro anos depois, em junho de 1982, Israel lançou uma invasão completa do Líbano, sitiando o reduto da OLP no oeste de Beirute e, mais uma vez, empurrando seus líderes para fora – dessa vez para a distante Tunísia.

O ministro da defesa de Israel, Ariel Sharon, não ficou satisfeito com isso. Sua cínica decisão de soltar os cristãos maronitas aliados de Israel sobre campos de refugiados palestinos levou, diretamente, a um horrível massacre que custou a vida de 700 a 1000 pessoas. Em meio à condenação internacional – à qual os Estados Unidos aderiram – tropas de paz da ONU foram novamente mobilizadas. Entre elas estavam várias centenas de fuzileiros navais dos EUA.

A hidra do terrorismo

A OLP e seus associados travaram sua guerra por muitos anos em duas frentes: não só diretamente contra Israel, mas, indiretamente, contra israelenses ou supostos simpatizantes israelenses no exterior. O terrorismo é, no entanto, uma hidra de muitas cabeças. Embora a OLP tenha sofrido um golpe severo com a invasão israelense do Líbano, os anos 1980 viram o surgimento de novos grupos, como a Organização de Abu Nidal, a Frente Popular para a Libertação da Palestina, o Hezbollah e o Hamas.

Enquanto a OLP devia mais ao nacionalismo e ao marxismo, essa nova geração de terroristas identificava-se, primariamente, com o islã. O que punha sua tática à parte daquelas dos anos 1960 e 1970 era o recurso ao ataque suicida e sua disposição muito maior para atacar americanos. Provavelmente deve-se atribuir menor significado para o primeiro desses traços. Na maioria dos países, na maior parte do tempo, terroristas que cometeram atos de assassinato foram, de fato, suicidas, já que eles ou morreram in flagrante ou foram executados depois por seus crimes.

O 11 de setembro e anteriores

Os especialistas que ficaram, momentaneamente, impressionados pela disposição dos terroristas do 11 de setembro de “matar a si mesmos para matar os outros” estavam se esquecendo de muitos precedentes desse comportarnento. Muito mais importante era o fato de que esses terroristas agora consideravam americanos um alvo legítimo. A virada nesse aspecto veio em 18 de abril de 1983, quando um terrorista suicida atacou a embaixada americana em Beirute matando 63 pessoas, incluindo toda a equipe de Oriente Médio da ClA. Seis meses depois, em outra missão kamikaze, um caminhão carregado de TNT foi jogado em direção a um quartel libanês onde fuzileiros navais americanos estavam alojados, matando 241 deles. A mesma tática matou quatro pessoas quando foi usada contra a embaixada dos EUA no Kuwait.

O terrorismo vem diminuindo

O impacto dos ataques de setembro de 2001 foi tal que é fácil esquecer que o número de incidentes terroristas internacionais vem na verdade caindo desde o pico do meio dos anos 1980 (ver figura abaixo).

Houve três vezes mais ataques em 1987 do que em 2002. Ao mesmo tempo, porém (embora com um declínio nos anos 1994-1995), a proporção de ataques diretos a americanos e interesses americanos vem crescendo. Como mostra a tabela 4, mais de uma a cada dez vítimas de terrorismo através das fronteiras desde 1991 é americana.

Alvo fácil: o World Trade Center

O World Trade Center foi atacado pela primeira vez em 1993. Isso foi seguido pelas explosões no quartel dos EUA na Arábia Saudita em 1996, nas embaixadas dos EUA em Nairóbi e Dar-es-Salaam em agosto de 1998, e pelo ataque ao [navio norteamericano] USSCole em Aden em outubro de 2000. Não foi uma profecia maluca quando a Comissão Nacional de Segurança, dirigida por Gary Hart e Warren B. Rudman, alertou em seu primeiro relatório, de setembro de 1999:

«Terroristas e outros grupos descontentes vão adquirir armas de destruição em massa e de danos em massa, e alguns vão usá-Ias. Americanos provavelmente vão morrer em solo americano, possivelmente em grande número».

Repetindo, o surpreendente no 11 de Setembro foi simplesmente que ele não tivesse ocorrido antes. Os Estados Unidos tinham subsidiado Israel por anos. Tinham escorado o regime do xá no Irã. Tinham mobilizado soldados na Arábia. Não havia falta de motivos para um ataque de um ou outro grupo terrorista do Oriente Médio.

O que foi demonstrado para os americanos comuns no dia 11 de setembro de 2001 era fartamente conhecido pelos especialistas havia anos. Os americanos não eram só um alvo, eles eram um alvo fácil.

Facilidades de hoje

O terrorismo pode não ser novo, mas os terroristas de hoje têm vantagens impressionantes em relação a seus predecessores. A tecnologia significa que grande destruição pode ser infligida a um custo desprezível – daí o número crescente de vítimas por ataque. Um rifle de assalto Kalashnikov pode ser comprado por umas poucas centenas de dólares.

O custo real de uma ogiva nuclear – e certamente o custo real de um kiloton de efeito nuclear – é quase com certeza mais baixo hoje do que em qualquer período desde que o Projeto Manhattan atingiu seu objetivo. A primeira bomba custou cerca de 2 bilhões em dólares de 1945. Convertido a preços de 1993, o número cresce dez vezes, o suficiente para comprar quatrocentos mísseis Tridente II. O fato de que a França pôde quase dobrar seu arsenal nuclear (de 222 ogivas em 1985 para 436 em 1991) ao mesmo tempo em que aumentava seu orçamento de defesa em menos de 7% em termos reais fala por si. Ainda assim, a AI Qaeda não precisou de nada tão sofisticado para destruir os prédios mais altos de Manhattan: só umas aulas de voo e estiletes. No momento em que escrevo, é possível pagar oitenta horas de aluguel de um avião e aulas de voo por menos de US$ 9 mil. Um estilete com seis lâminas custa US$ 2,11.

As perdas relativas aos ataques de 11 de setembro

Por uma ninharia em dinheiro, portanto, um punhado de homens foi capaz de matar 3.173 pessoas e infligir perdas econômicas imediatas estimadas em US$ 27,2 bilhões – uma fração minúscula da perda acumulada na receita nacional que foi inicialmente projetada em cerca de 5% do PIB.

Para a indústria de seguros, diz-se que os custos finais do desastre ficaram entre US$ 30 bilhões e US$ 58 bilhões. As companhias aéreas americanas também foram gravemente afetadas, assim como o turismo. Os pagadores de impostos enfrentaram uma conta não só pela reconstrução, mas também pelo resgate das companhias aéreas e os gastos significativamente aumentados em “segurança interna”. Os custos de longo prazo dos ataques do 11 de Setembro – sob a forma de um grau maior de incerteza, volatilidade do mercado, custos de segurança e taxas de risco – só podem ser conjecturados.

Como se saíram os EUA?

A economia dos EUA passou por esse golpe mais facilmente do que muitos temeram na época. Olhados em termos estritamente econômicos, os ataques do 11 de Setembro foram comparáveis a um desastre natural muito severo: caro, mas pagável, e muito menos significativo do que a deflação da bolha do mercado de ações que tinha começado um ano e meio antes.

Comparado ao estrago que poderia ter sido feito pela União Soviética na eventualidade de a Guerra Fria ter se tornado “quente”, eles foram, na verdade, triviais.

Os riscos já foram maiores

O fato da “terceira guerra mundial”, simplesmente, não ter acontecido não deveria nos levar a tirar a conclusão errada de que a AI Qaeda é mais perigosa para os Estados Unidos do que foi o comunismo soviético. Como vimos, as ideologias das duas entidades guardam certas semelhanças, mas a capacidade militar de Stálin, Khrushchev e Brejnev excediam as de bin Laden por muitas ordens de grandeza. Um ataque pela União Soviética teria deixado centenas de milhares, se não milhões de americanos mortos e teria apagado os traços não só de duas torres, mas de diversas cidades.

O problema com a AI Qaeda não é que ela seja uma grande ameaça; é que uma ameaça tão pequena e, em termos de organização, tão difusa, é extremamente difícil de localizar, seja para aniquilar, seja para negociar. Por um lado, então, temos um poderoso consenso de que não se pode permitir que uma calamidade causada pelo homem, como o 11 de Setembro, aconteça novamente. Por outro lado, temos a insidiosa desconfiança de que uma repetição seja praticamente impossível de evitar.

O terrorismo vai passar?

Assim como era um mito nos anos 1930 que «o bombardeiro sempre vai passar», é um mito hoje que “o terrorista sempre vai passar”. O terrorismo doméstico pode ser reduzido – se não totalmente eliminado – por uma combinação de policiamento e negociação.

O problema do terrorismo era sério na Europa ocidental durante os anos 1970, quando minorias nacionalistas (na Irlanda e na Espanha) e radicais marxistas (na Itália, na Alemanha e na Grécia) executavam uma campanha de assassinatos e destruição. Hoje, com a exceção do grupo separatista basco Euskadi ta Askatasuna (ETA), os responsáveis por esses crimes foram presos, marginalizados ou induzidos a renunciar à violência.

O número de incidentes terroristas caiu acentuadamente. O Exército Republicano Irlandês Provisório efetivamente dividiu-se, com sua liderança, no fim, tendo que optar entre a bala e a cédula, apesar do fato de que não está nem remotamente perto de atingir sua meta de uma Irlanda unificada. Os esquerdistas radicais de 1968 estão mortos, presos ou – com suas opiniões milagrosamente moderadas pelas tentações do poder – no governo. Nenhum movimento terrorista está imune ao cisma quando confrontado com, ao mesmo tempo, firmeza e diálogo.

E o Oriente Médio?

Um desarmamento do terrorismo desse tipo é concebível no Oriente Médio? Não – parece claro – enquanto Israel procurar uma solução puramente militar para o problema. No momento em que escrevo (verão de 2003), a violência entre israelenses e palestinos tanto em Israel quanto nos territórios ocupados custou a vida de quase 3 mil pessoas, desde a intifada de “Al Aqsa” em setembro de 2000: mais de 2 mil palestinos e mais de setecentos israelenses. Que o governo de Ariel Sharon tenha sido levado à construção de um muro em torno das áreas de habitação palestinas é um índice de seu desespero. Essa é uma política que deve algo à Alemanha de Ulbricht e à África do Sul de Verwoerd – um “muro de Berlim” através da Terra Santa para aplicar um novo apartheid.

O terrorismo no Oriente Médio não vai parar enquanto houver Estados dispostos a patrociná-lo.

O internacionalismo terrorista – ou, para ser exato, a disseminação do terrorismo em direção aos Estados Unidos – precisa de uma reação que ultrapasse fronteiras. Deveria ter sido óbvio bem antes de setembro de 2001 que o apoio a grupos terroristas por parte de Afeganistão, Cuba, Iraque, Irã, Líbia, Coreia do Norte, Sudão e Síria só poderia ser interrompido por meio de intervenção nos negócios internos desses países. Esse tipo de intervencionismo estava longe de ser fácil durante a Guerra Fria, quando qualquer ação americana com certeza provocaria uma reação soviética. Mesmo depois que o colapso da União Soviética deu aos Estados Unidos uma “hegemonia por omissão”; os responsáveis pela política americana achavam difícil imaginar algo além de punições em grande medida simbólicas.

Pretextos e efetividade

Em abril de 1986, o presidente Reagan ordenou ataques aéreos contra cinco alvos líbios«para ensinar uma lição a Qaddafi de que a prática de terrorismo patrocinado pelo Estado tem um custo alto» — nas palavras do secretário de Defesa Caspar Weinberger. Doze anos depois, em agosto de 1998, o presidente Clinton ainda estava usando a mesma tática, lançando mísseis contra supostas «instalações relacionadas ao terrorismo» no Afeganistão e no Sudão em retaliação às explosões nas embaixadas do Quênia e da Etiópia. Essas demonstrações deram pouco resultado. Na verdade, a imagem de um míssil Cruise atingindo uma tenda (vazia) parecia simbolizar a impotência americana – nas palavras do sucessor de Clinton, essas táticas eram simplesmente uma «piada».

Os Estados Unidos, porém, começaram a ficar mais confiantes em sua própria capacidade militar durante os anos 1980. Depois do nadir de abril de 1980, quando uma tentativa aérea de resgatar os reféns americanos em Teerã fracassou vergonhosamente, houve mudanças importantes no Pentágono. Os Estados Unidos continuaram a se engajar em operações anticornunistas secretas na América Central, patrocinando a guerra dos “contras” para derrubar o regime sandinista que havia chegado ao poder na Nicarágua em 1979, subsidiando o governo anticomunista de El Salvador e transformando Honduras em pouco mais do que um acampamento do Exército americano. Em muitos sentidos, era a continuação da abordagem «o nosso filho da puta» para a região, coberta com uma retórica da Guerra Fria que era apenas um pouquinho mais nova. O interesse público era limitado; uma pesquisa revelou que cerca de um terço dos americanos pensava que os “contras” estavam lutando na Noruega.

Novidades no front

As intervenções abertas dos anos 1980 eram mais novidade. Em outubro de 1983, o presidente Reagan ordenou uma invasão completa da minúscula ilha caribenha de Grenada para reverter um golpe de esquerda. O nome da operação, “Fúria Urgente”, revelava algo do humor mudado dos militares. O sucesso em Grenada foi seguido, seis anos depois, quando o presidente George Bush pai ordenou a derrubada do ditador general Manuel Noriega. Apesar do fato de que os Estados Unidos tinham concordado em entregar o Canal do Panamá em 1º de janeiro de 1990, a anulação das eleições de maio anterior por Noriega forneceu a justificativa para a invasão em larga escala por 25 mil soldados americanos. A operação “Causa Justa” foi uma nova mudança: força desproporcional usada, unilateralmente, para derrubar – em vez de instalar – um ditador.

Mudanças administrativas internas e mais dinheiro

Essa nova autoconfiança vinha, em parte, de dentro. A Lei Goldwater-Nichols (1986) tinha transformado a estrutura de comando das forças armadas americanas, promovendo o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas ao papel de assessor militar principal do presidente e, mais importante, criando uma nova elite de cinco “comandos unificados de combate”, cada um com responsabilidade sobre uma área geográfica especffica. Particularmente importante foi a transformação da Força-Tarefa Conjunta de Mobilização Rápida em um novo Comando Central, que deveria ser central em um sentido mais do que geográfico. O redesenho do atlas, implícito nessa nova estrutura, tinha consequências operacionais importantes, já que os Estados Unidos não tinham forças mobilizadas igualitariamente em todas as cinco regiões. O Centcom, em particular, tinha poucos soldados à disposição; o comandante responsável por essa região estrategicamente vital, que vai do Chifre da África à Ásia central, era, no início, um chefe com poucos índios. Uma consequência disso foi o crescimento em importância das altamente móveis forças de Operações Especíaís.

De modo significativo, os aumentos substanciais nos orçamentos dessas novas entidades militares coincidiram com acentuadas reduções no financiamento do Departamento de Estado. Acima de tudo, o processo de repensar o jeito americano de fazer a guerra – para ser exato, o processo de aprender as lições do Vietnã – finalmente deu frutos doutrinais. Como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Bush, o general Colin Powell detalhou quais lições deveriam ser essas. Nunca mais a geração de oficiais que havia liderado o esforço de guerra no Vietnã «aceitaria uma guerra com meio comprometimento por causa de justificativas meio explicadas que o povo americano não conseguia entender nem apoiar». Dali para a frente, os Estados Unidos «não deveriam empregar suas tropas em combates no exterior a não ser que o engajamento ou a ocasião específicos sejam julgados vitais para o nosso interesse nacional ou de nossos aliados»; quando esses casos surgirem, e só como «último recurso», soldados devem ser empregados «com convicção e com a clara intenção de vencer»; devem ser dados a eles «objetivos políticos e militares claramente definidos», mas tanto os meios quanto os fins «devem ser continuamente reavaliados e ajustados se necessário», e deve haver «alguma garantia razoável de que sempre haverá o apoio do povo americano e de seus representantes eleitos no Congresso». (Foi em parte para assegurar que esse tipo de apoio ocorreria que Powell mais tarde acrescentou o importante adendo de que todas as intervenções americanas deveriam ter uma «estratégia de retirada».

A verdadeira inflexão histórica

A ênfase de Powell na necessidade de clareza de propósito era sincera e saudável. Sob sua liderança – ele declarou explicitamente – não haveria outro fiasco como a expedição ao Líbano de 1983. Mesmo assim, é importante lembrar que o novo tipo de intervenção que Powell tinha em mente só se tornou possível por uma mudança fundamental no contexto estratégico global. O fato de a invasão do Panamá ter ocorrido só um mês depois da queda do Muro de Berlim está longe de ser uma coincidência. Antes, a ameaça soviética tinha inclinado os Estados Unidos a intervir secretamente, com frequência para preservar ditadores latino-americanos confiavelmente anticomunistas. Agora, com o império soviético ruindo, a intervenção podia ser bastante aberta e, ao menos em aparência, em nome de forças democráticas não só na América Latina, mas, potencialmente, em qualquer lugar. Nesse sentido, o verdadeiro ponto de inflexão histórico foi 9 de novembro, e não 11 de setembro. Depois da revolução na Alemanha Oriental em 9 de novembro de 1989, ficou repentinamente aparente que o líder soviético Mikhail Gorbatchev não iria ou não poderia manter o império russo mandando tanques para cidades da Europa do leste. Daí a importância da Alemanha, uma reunificação liderada pelo Ocidente do que havia sido antes material dos mais negros pesadelos dos líderes soviéticos anteriores, seguiu-se, por implicação, que os Estados Unidos estavam livres para se envolver mais ou menos em qualquer lugar. No dia 2 de dezembro, Bush e Gorbatchev formalmente declararam o fim da Guerra Fria. Em 19 de dezembro começou a invasão do Panamá.

No Iraque a coisa seria diferente

Quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait no dia 2 de agosto de 1990, ele, involuntariamente, criou a oportunidade para os Estados Unidos dar-lhe o tratamento que tinham acabado de impor a Noriega. Foi isso mesmo? Porque, mesmo com a União Soviética em crise, o Oriente Médio não era bem a América Central. Uma mudança unilateral de regime no Panamá tinha sido implementada com quase nenhum murmúrio de protesto internacional. Ainda assim, por duas razões cruciais, o Iraque mostrou-se diferente. A primeira foi a crença (que era quase universal em 1990) de que uma intervenção no Oriente Médio requeria a aprovação das Nações Unidas. A segunda foi que essa aprovação, ainda que fosse unânime, não seria legítima aos olhos dos islamo-bolcheviques. Pois a vitória da América na Guerra Fria tinha sido – nas ruínas da distante e semiesquecida Cabul – a vitória deles também.

Para lá e para cá

O foco geográfico do império americano mudou várias vezes ao longo do S20. No começo do século ele foi um império hemisférico, atingindo o Caribe a leste, a América Central ao sul, e, a oeste, o Pacífico. No meio do século, ele tinha sido forçado a, relutantemente, estender seu alcance até a Europa, e, durante boa parte da Guerra Fria, a segurança da Europa Ocidental parecia importar mais do que a Ásia ou, de fato, do que o Caribe.

Gradualmente, no entanto, o Oriente Médio veio a ser o núcleo em torno do qual a estratégia americana girava: por causa de Israel, por causa do petróleo, por causa do terrorismo. Com o fim da Guerra Fria, apresentaram-se as oportunidades para usar o revivescente poderio militar americano contra um ou mais desses Estados perigosos que simultaneamente ameaçam Israel, possuem petróleo e patrocinam o terrorismo.

A questão não era se os Estados Unidos iriam agir contra esses inimigos jurados – eles não podiam se dar ao luxo de não agir. A questão era se iriam fazer isso sozinhos ou com seus aliados tradicionais.

Niall Ferguson

Créditos → este post é composto por parte do capítulo «A Lógica do Terror» do livro«Colosso – Ascensão e Queda do Império Americano», escrito em 2004 por Niall Fergusson (1964) – historiador inglês, professor/pesquisador em Harvard, Oxford e Stanford e correspondente do Financial Times e da Newsweek, dentre outras atividades e livros publicados, inclusive no Brasil. Deve-se levar em conta o ano em que o livro foi escrito e os acontecimentos posteriores, até os dias de hoje. Introduzi subtítulos no texto para incentivar e facilitar a leitura.

Os livros a ler são:

Chomsky, Noam — O Império Americano – Hegemonia ou Sobrevivência — Rio de Janeiro, Brasil: Campus/Elsevier Editora Ltda., 2004.

Ferguson, Niall — Colosso – Ascensão e Queda do Império Americano — São Paulo, Brasil: Editora Planeta do Brasil Ltda., 2011.

Kiernan, V. G. — Estados Unidos – O Novo Imperialismo — Rio de Janeiro, Brasil: Editora Record Ltda., 2009.

Landes, David — Dinastias – Esplendores e Infortúnios das Grandes Famílias Empresariais — Rio de Janeiro, Brasil: Elsevier Editora Ltda./Editora Campus., 2007.

Lens, Sidney — A Fabricação do Império Americano – Da Revolução ao Vietnã: Uma História do Imperialismo dos Estados Unidos — Rio de Janeiro, Brasil: Editora Civilização Brasileira/Editora Record Ltda., 2006.

Moniz Bandeira, Luiz Alberto — Formação do Império Americano – Da Guerra Contra a Espanha à Guerra do Iraque — Rio de Janeiro, Brasil: Editora Civilização Brasileira/Editora José Olympio, 2009.

Morris, Charles R. — Os Magnatas — Porto Alegre, Brasil: L&PM Editores, 2006.

Perkins, John — A História Secreta do Império Americano — São Paulo, Brasil: Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 2008.

Pieterse, Jan Nederveen — O Fim do Império Americano? – Os Estados Unidos Depois da Crise — Belo Horizonte, Brasil: Geração Editorial, 2009.

Tocqueville, Alexis de — A Democracia na América (livro I – Leis e Costumes; livro II –Sentimentos e Opiniões) — São Paulo, Brasil: Livraria Martins Fontes Ltda., 2005 e 2004.

Wolf, Naomi — O Fim da América — Rio de Janeiro, Brasil: Editora Record Ltda., 2010.

Wallerstein, Immanuel — O Declínio do Poder Americano — Rio de Janeiro, Brasil: Contraponto Editora Ltda., 2004.

Zakaria, Fareed — O Mundo Pós-Americano — São Paulo, Brasil: Editora Schwarcz Ltda./Companhia das Letras, 2008.

Contatos com a editora ➞ Editora Planeta do Brasil Ltda.: Avenida Francisco Matarazzo, 1500, 3º andar, conj. 32B, São Paulo/SP, 05001-100. Site: www.editoraplaneta.com.br

E-mail → vendas@editoraplaneta.com.br

Inaceitáveis obviedades!

Quer ser impopular? Diga que há um desastre civilizacional em curso, motivado pela corrosão dos valores da tradição judaico-cristã.

Recebo muitas mensagens eletrônicas apontando o farisaísmo de quem critica a corrupção que vê e fecha os olhos para o extenso rol dos próprios desvios diários de conduta. Certo, é farisaísmo mesmo. Essa inquietante observação sobre os comportamentos individuais conduz, ademais, à conclusão de que não existem sociedades virtuosas. Se as pessoas não o são, a sociedade tampouco o será. Aliás, é esse lado obscuro da natureza humana que, entre outras coisas, torna necessária a existência da lei, dos poderes de Estado e da política.

O artigo poderia terminar aqui se as proclamações feitas acima fossem as únicas verdades a serem ditas sobre o assunto, mas não é o caso. Aliás, quanto mais a toalha da renúncia à virtude for jogada no tablado da cultura contemporânea e quanto mais isso for objeto de indiferença social, maior será a corrupção dos corruptos e o farisaísmo dos fariseus. Chegará o dia em que, virado o fio, o vício se converterá em virtude e a virtude em vício. Não, não estamos longe disso, leitor, numa época em que o adjetivo "sacana" pega melhor que o adjetivo "virtuoso". Ou não? E todos riem.

Que somos imperfeitos, sabemos. O que parece haver sumido das nossas reflexões sobre a sociedade é o fato de que somos aperfeiçoáveis. Assim como sempre podemos fazer melhor o que fazemos, sempre podemos ser melhores do que somos. Portanto, as sociedades jamais serão plenamente virtuosas, mas os indivíduos temos um compromisso moral com o nosso aperfeiçoamento. O que se tornou saudável prática em relação ao condicionamento físico sumiu dos procedimentos em relação ao caráter. Tornamo-nos moralmente sedentários! Abandonamos os exercícios que envolvem a formação da consciência.

Eis aí, então, um dos mais graves problemas da sociedade contemporânea. Podemos nos abraçar em muitos erros e vícios, mas fugimos das decorrentes responsabilidades morais e, principalmente, do mais tênue sentimento de culpa. Opa, culpa não! Culpa faz mal à saúde. No entanto, pergunto: como haver arrependimento e retificação das condutas sem que a consciência bem formada acuse o erro? Como corrigir o mal feito a outros sem que a percepção do erro, elaborada no plano da consciência, nos mobilize nessa direção? Em qual laboratório - que não no da consciência - pode nascer algo tão humano quanto o pedido de perdão? Cuidado! São muito claros os sinais de que estamos nos alinhando nos viciosos degraus de uma escada pela qual apenas poderemos descer. Onde anda o hábito de examinar a consciência, de refletir sobre ações e motivações, de corrigir erros, de pedir e oferecer perdão, de buscar o bem e evitar o mal? Todo esse percurso envolve etapas de ponderação e deliberação moral que, pouco a pouco, foram descartadas das práticas pessoais, familiares e, mesmo, religiosas. É como se a busca do bem tivesse deixado de ser saudável e o arrependimento fosse um desconforto a ser abolido do plano das consciências.

Quer ser impopular? Diga que há um desastre civilizacional em curso, motivado pela corrosão dos valores da tradição judaico-cristã. Quer desagradar a muitos? Proclame ser escandalosa a conduta de uma sociedade inteira que joga sua cultura e moralidade nos cínicos labirintos do relativismo até se extraviar totalmente de uma e de outra. E, depois, se queixa das consequências.



Zero Hora, 11/09/2011